A costa nordestina no Brasil holandês

EXPOSIÇÃO VIRTUAL

Introdução

Ao longo de 24 anos a Companhia das Índias Ocidentais (West-Indische Compaigne - WIC) ocupou e dominou parte do atual território do Nordeste brasileiro. No auge de sua ocupação, ocorrida durante o governo de João Maurício de Nassau (1638-1644), os domínios do Brasil holandês iam de Alagoas ao Maranhão. Devido a essa longeva dominação, os holandeses deixaram algumas marcas na colônia da América Portuguesa e uma dessas marcas foram registros iconográficos.

Sob o mecenato de Maurício de Nassau, artistas e estudiosos vieram ao Brasil para estudar a natureza, a economia, a cultura e a sociedade. Um desses artistas foi o pintor holandês Frans Janszoon Post (1612-1680) que, aos 25 anos, viajou ao Brasil para fazer uma série de pinturas e desenhos sobre a natureza, engenhos, vilas, fazendas, etc. A coleção de pinturas, desenhos e gravuras de Post é um dos grandes legados do Brasil holandês. Parte de sua produção foi publicada no livro História dos “Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil” (1647) de Gaspar Barléus.

A exposição

A partir de algumas das obras de Frans Post ilustramos essa exposição virtual em que abordamos as impressões dos holandeses sobre a costa nordestina. No entanto, não nos limitamos apenas as pinturas de Post, decidimos também utilizar relatos marítimos sobre a costa. Para isso, escolhemos o relatório “A tocha da navegação” (Toortse der Zee-vert), escrito pelo capitão Dierick Ruiters e publicado em 1623, e o relatório “Roteiro do Rico Brasil” (Reysboeck van het Rycke Brasilien), de autoria anônima, publicado em 1624. Antes da conquista de parte do nordeste brasileiro, os holandeses já haviam visitado a colônia para, além de obter informações, realizar atividades de comércio. Os dois relatórios são reflexos dos interesses da Holanda sobre o Brasil que, naquele tempo era o maior produtor de açúcar no Ocidente, o então “ouro branco” da época.

Frans post, 1647

Baía de
Todos os
Santos

01
Forte de São Bartolomeu da Passagem

A imagem destaca o Forte de São Bartolomeu da Passagem, na ilha de Itaparica e ao fundo ficava a antiga localização da cidade de Salvador.

02
Invasão holandesa

Salvador foi invadida em 1624 por uma frota da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e ocupada até 1625. Quando foi recuperada pelos portugueses e espanhóis.

03

“Quem entrar nesta baía deve fazê-lo de modo queo castelo de Santo Antônio fique a N/O e S/L, vindo do mar, passar por ele omais pegado possível para vir com vento de feição e, assim, chegar maisfacilmente ao porto. [...]. Esta baía tem uma largura de mais de três léguas aentrada, com bastante água para bordejar por toda parte. [...]. Pode-se ancorarem qualquer lugar dentro da baía, o fundo e limpo”.

A tocha da navegação, 1623
Frans post, 1647

Barra do
Rio São
Francisco

01
Fuga dos soldados portugueses

Nessa pintura, Frans Post retrata a barra do rio São Francisco, situada entre os estados de Sergipe e Alagoas. Na cena, ele enfatizou a fuga dos soldados portugueses após a conquista do local. No fundo da pintura vemos navios, a vila de Penedo e o Forte Maurício.

02
Invasão holandesa

A Vila de Penedo que era ponto estratégico na barra do rio, foi conquistada pelos holandeses em 1637, mantida sob seu domínio até 1645, quando perdida temporariamente e retomada em 1646, até ser reconquistada pelos portugueses no ano seguinte.

03

“Rio S. Francisco situado a 10º 20’ é relativamente povoado e entra pelo interior muito longe. Não faltam mantimentos. Um recife arenoso estende-se algumas milhas ao longo da praia, de modo que entre esses baixios e a terra firme pode-se navegar com pequenos barcos”.

Roteiro do Rico Brasil, 1624
Frans post, 1647

Cabo de
Santo
Agostinho

01
Vista a partir do Sul

A gravura retrata o cabo visto a partir do Sul, podendo-se ver pescadores, navios e algumas construções nas colinas no Norte.

02
Ocupação entre 1635 e 1645

O Cabo de Santo Agostinho foi ocupado pelos holandeses entre 1635 e 1645, quando foi recuperado pelos portugueses. O quais retomaram o controle do Forte de Nazaré, principal fortificação local.

03

“Vindo do mar, este cabo parece antes uma costaregular, mas ao chegar-se à terra surgem dois ou três rochedos não distantesdela e muito pequenos. Do lado norte há muita pedra, mas o cabo não passa de umpontal baixo avançando sobre a água”.

A tocha da navegação, 1623
Frans post, 1647

Recife

01
Mauritiopolis

Frans Post retratou Recife na época chamado de Mauritiopolis em homenagem a Maurício de Nassau. No plano de fundo há várias casas e algumas igrejas.

02
O porto

Após a conquista de Olinda, seu porto chamado de Povo ou Recife, foi logo conquistado pelos holandeses ainda em 1630, vindo a se tornar futuramente parte da capital da Nova Holanda, chamada Cidade Maurícia (Mauritiopolis). Recife somente foi abandonada em 1654 pelas tropas holandesas.

03

“Pernambuco [Recife] fica a 8 graus sul do Equinoxial. Tem a entrada dois fortes. O da esquerda, menor, situado na ponta de um recife de pedra que mede cerca de uma milha de comprido por 10 passos de largo. [...]. Comumente os navios ficam fora desse dique, aguardando que a maré suba, para então avançarem meia milha até o Povo Recife, onde existem muitos armazéns e casas”.

Roteiro do Rico Brasil, 1624
Frans post, 1647

Olinda

01
Vila de Olinda

Nessa gravura da antiga vila de Olinda, Post retratou uma paisagem cheia de mato, e destacando suas igrejas: Igreja do Carmo, Catedral da Sé, Convento e Igreja de São Francisco. Na praia em primeiro plano temos alguns escravizados conversando. No lado esquerdo ao fundo, encontra-se o Recife.

02
Primeira conquista

A Vila de Olinda foi a primeira localidade a ser conquistada pelos holandeses, algo ocorrido ainda em 1630, tendo sido mantida até 1645. Na ocasião de sua conquista, as igrejas foram depredadas e assaltadas e parte da vila foi incendiada.

03

“A cidade de Pernambuco [Olinda] está construída sobre uma colina bastante alta, que avança como promontório sobre o Mar Oceano. Ao sul, ela desce e se estende suavemente numa praia de areia branca; ao norte ela é muito escarpada e, mais para o norte ainda, há outra praia de areia branca que se alonga para oeste. Nesta cidade de Pernambuco faz-se grande comércio de açúcar que é aí muito abundante”.

A tocha da navegação, 1623
Frans post, 1647

Itamaracá

01
Forte Orange

Nessa gravura observa-se a ilha de Itamaracá do outro lado do rio Maria de Farinha. Nota-se algumas mulheres indígenas passeando com seus filhos na praia em primeiro plano. No lado direito na ponta da ilha, tem-se o Forte Orange (atual Fortaleza de Santa Cruz).

02
Anexada em 1633

A Capitania de Itamaracá foi rendida em 1633 e anexada aos domínios holandeses. A partir de 1645 os portugueses foram recuperando seu controle.

03

“S. Maria de Farinha. O lugar fica a 8 milhas de Pernambuco [Olinda]: na embocadura do rio está a ilha de Tamaracá [Itamaracá]. Cultiva-se na redondeza cana, farinha e extrai-se algum pau-brasil. A costa é rochosa e escarpada, um perigo para navios grandes, pois daí começa o recife que se estende até a altura de 6 grau, de modo que se pode navegar entre o mesmo e a terra, mas só com barcos e canoas”.

Roteiro do Rico Brasil, 1624
Frans post, 1647

Barra
do rio
Paraíba

01
Forte do Cabedelo

A imagem apresenta o Forte do Cabedelo (atual Fortaleza de Santa Catarina) e a barra do rio, vistos a partir de uma praia em Cabedelo. Ao fundo pode-se ver o Forte de Santo Antônio do outro lado do rio. Cuja fortificação não existe mais.

02
Conquista em 1634

A Capitania da Paraíba foi conquistada pela WIC em 1634, após três campanhas militares, sendo mantida sob ocupação parcial até 1654.

03

“Quatro léguas para o norte do Cabo Branco fica o rio Paraíba, grande e largo, onde os portugueses estão construindo muitas casas e engenhos, sendo o açúcar daí tão bom quanto o de Pernambuco. [...]. De ambos os lados do rio, a costa é suja[arrecifes] e não se deve aproximar dela a menos de três léguas, até que o rio se abra aparecendo um bosque no meio do estuário [ilha da Restinga]”.

Atocha da navegação, 1623
Frans post, 1647

Rio
Grande
do Norte

01
Forte dos Reis Magos

Nessa pintura observa-se alguns pescadores numa praia descampada nas cercanias do Forte dos Reis Magos, em Natal.

02
Conquista em 1633

A Capitania do Rio Grande do Norte foi conquistada pelos holandeses em 1633 e ocupada parcialmente até 1654. Em grande parte, a dominação holandesa ficou restrita a Natal e territórios vizinhos.

03

“Rio Grande, também chamado Rio Potengi. É um belo e amplo rio que também pela frente um recife de pedra, igual ao de Pernambuco, o que lhe dá uma defesa natural. Contudo, não vivem aí muita gente por causa dos Cariben, chamados Tapuyas, que são inimigos dos espanhóis e, por vezes, os assaltam. Em toda acosta até o cabo de São Roque é difícil conseguir água doce, mesmo porque os navios não podem se aproximar dela a vontade”.

Roteiro do Rico Brasil, 1624
Frans post, 1647

Ceará

01
Cidade de Fortaleza

Nessa imagem, Frans Post retratou a cidade de Fortaleza vista a partir do interior, não da costa.

02
Conquista em 1637

A Capitania do Ceará foi conquistada de forma fácil em 1637. Em que Fortaleza e acosta ficaram sob domínio holandês até 1644, quando os holandeses foram expulsos, apesar de terem retornado em 1650 para recuperar as terras perdidas, mas fracassando no intento.

03

“Povo do Siara [Fortaleza] é uma vila portuguesa, situada a 3 graus, contando com algumas guarnições para defesa da costa. Estas não ousam aprofundar-se pelo interior porque há índios que são seus inimigos. [...]. Nela também se encontram bois, fumo e víveres”.

Roteiro do Rico Brasil, 1624
Frans post, 1647

Maranhão

01
Vila de São Luís

A pintura mostra a Vila de São Luís vista da barra do rio. Pode-se observar casas e igrejas e o porto cheio de navios.

02
Conquista em 1641

O Maranhão foi o último território conquistado pelos holandeses, algo ocorrido em1641, nos últimos anos do governo de Maurício de Nassau. O domínio perdurou deforma inconstante até 1644, depois disso a presença foi reduzida ao governador e uma guarnição, algo visto também na Paraíba.

03

“O Rio Maranhon [Golfo do Maranhão] forma um grande golfo ou baía em que se acham várias ilhas. Na ponta leste fica a ilha Carapa e, para oeste, o rio Punta da Comma, 2 graus ao sul do Equador. Para fora, alarga-se a baía 18 milhas, formando uma meia lua ou círculo que encerra uma ilha muito povoada e com muito gado, fora outras menores. Nelas afluem cinco ou seis rios, dos quais o Maranhão é o principal”.

Roteiro do Rico Brasil, 1624

CRÉDITOS

01. TEXTO & PESQUISA

Doutor Leandro Vilar Oliveira

02. DESIGN DA EXPOSIÇÃO

Professor Dr. Ticiano Alves

03. REVISÃO ORTOGRÁFICA

Professora Mestra Raphaella Alves

04. IMAGENS

Biblioteca Nacional de Portugal
John Carter Brown Digital Library

05. REFERÊNCIAS / FONTES

05.1. Imagens
Biblioteca Nacional de Portugal
:
Baía de Todos os Santos - Sinus Omnium Sanctoru, Frans Post, 1647.
Barra do Rio São Francisco - Castrum Mauritij ad Ripam Fluminis S. Francisci, Frans Post, 1647.
Cabo de Santo Agostinho - Capvt. S. Augustini, Frans Post, 1647.
Olinda - Olinda, Frans Post, 1647.
Itamaracá - Itamaraca, Frans Post, 1647.
Barra do rio Paraíba - Ostium Fluminis Paraybae, Frans Post, 1647.
Rio Grande do Norte - Fluvius Grandi, Frans Post, 1647.
Ceará - Siara, Frans Post, 1647.
Maranhão - Maragnon, Frans Post, 1647.

John Carter Brown Digital Library:
Recife - Mauritiopolis, Frans Post, 1647.

05.2. Texto
A Tocha da Navegação

RUITERS, Dierick. A Tocha da Navegação para viajar as costas situadas ao sul do Trópico de Câncer como o Brasil, as Índias Ocidentais, etc. Introdução de Joaquim de Sousa Leão Filho. RIHGB, vol. 269, p. 3-84, out/dez 1969.

Roteiro do Rio Brasil
ROTEIRO do Rico Brasil, Rio da Prata, Magalhães e Le Maire, no qual podem-se ver a situação dessas terras e cidades, seus usos e costumes, produtos e fertilidades das mesmas, tudo ilustrado com estampas de cobre. Introdução de Joaquim de Sousa Leão Filho. RIHGB, vol. 303, p. 181-224, abr/jun 1974.




05.1. FONTES: Imagens

Biblioteca Nacional de Portugal:
Baía de Todos os Santos - Sinus Omnium Sanctoru, Frans Post, 1647.
Barra do Rio São Francisco - Castrum Mauritij ad Ripam Fluminis S. Francisci, Frans Post, 1647.
Cabo de Santo Agostinho - Capvt. S. Augustini, Frans Post, 1647.
Olinda - Olinda, Frans Post, 1647.
Itamaracá - Itamaraca, Frans Post, 1647.
Barra do rio Paraíba - Ostium Fluminis Paraybae, Frans Post, 1647.
Rio Grande do Norte - Fluvius Grandi, Frans Post, 1647.
Ceará - Siara, Frans Post, 1647.
Maranhão - Maragnon, Frans Post, 1647.

John Carter Brown Digital Library:
Recife - Mauritiopolis, Frans Post, 1647.

05. FONTES: Texto

A Tocha da Navegação
RUITERS, Dierick. A Tocha da Navegação para viajar as costas situadas ao sul do Trópico de Câncer como o Brasil, as Índias Ocidentais, etc. Introdução de Joaquim de Sousa Leão Filho. RIHGB, vol. 269, p. 3-84, out/dez 1969.

Roteiro do Rio Brasil
ROTEIRO do Rico Brasil, Rio da Prata, Magalhães e Le Maire, no qual podem-se ver a situação dessas terras e cidades, seus usos e costumes, produtos e fertilidades das mesmas, tudo ilustrado com estampas de cobre. Introdução de Joaquim de Sousa Leão Filho. RIHGB, vol. 303, p. 181-224, abr/jun 1974.