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Por que não, uma mulher pescando no mar?

Por que não, uma mulher pescando no mar?

Infância na roça onde ajuda a família nas plantações. Casamento na juventude com um pescador. Naufrágio. Mudança para Macaé. Pescadora de alto-mar. Adversidades da vida de uma família de pescadores. Filhos. Esperança para o futuro.

Demercilia Teixeira de Souza (Cilinha)

História completa

P/1 – Então, bom. Inicialmente gostaria de agradecer muito Cilinha por nos receber aqui na sua casa, para dar essa entrevista para um projeto que é super importante. Tá, muito obrigado. Bom, para a gente identificar, eu queria que você falasse o seu nome completo, o local e a sua data de nascimento.

R – É, Demercilia Teixeira de Souza, aqui é Augusto Braga, 145. Eu nasci em 6 de novembro de 1975.


P/1 – Nasceu em?

R – Campos.


P/1 – Nasceu em Campos? Ok, 1975. Está bom, antes de entrar na sua vida mesmo, eu vou perguntar um pouco sobre a sua família, sobre os seus pais, a origem da sua família. Você conheceu os seus avôs?

R – Conheci, muito.


P/1 – É? Conta um pouco o nome deles, de onde eles vieram.

R – Eles eram, da parte da minha mãe, eles eram, trabalhavam em roça, negócio de cana, plantava abóbora, essas coisas assim, melancia. Aí nós colhíamos, eu até ajudava na roça também, cortava cana, trabalhava na enxada, tudo isso já passei. Depois, o meu avô da parte do meu pai não tive muito contato não, porque ele morava em outra cidade. Depois o meu avô recebeu uma proposta boa do sítio que ele tinha, pegou e vendeu. Aí vieram para o Farol, para Campos. Dali a idade foi passando, foi passando, minha avó adoeceu, ficou três anos em cima da cama. Meu avô teve um AVC, faleceu. Minha vó ficou sofrendo na cama ainda, minha mãe sofrendo, meus tios, tudo, aí depois ela faleceu. Não fui ao velório deles porque eu passo mal, até eu sou proibida de ir em velório, essas coisas, que eu tenho problema de nervo. Aí foi, a minha vida sempre foi um pouco de alegria, um pouco de sofrimento. Aí veio o problema que as minhas tias da parte de pai com câncer de mama, depois veio de estômago. Aí fui só perdendo meus entes, família e, não fui em nenhum velório, para mim eles estão vivos, não faleceu ninguém. E quando a gente vê, é uma coisa quando a gente não vê, é outra coisa.


P/1 – Ficam vivos na memória sempre.

R – Sempre. Para mim eles estão viajando.


P/1 – Me conta um pouco, você disse que nasceu em Campos.

R – Em Campos.


P/1 – É, na área rural de Campos?

R – Isso.


P/1 – Área rural de Campos? Me conta um pouco...

R – Lá em Boa Vista.


P/1 – Os seus pais nasceram aonde? Também em Campos?

R – É, são de Campos também.


P/1 – São de Campos também, entendi. E conta um pouco como é que era a vida ali. Descreve a sua casa na infância, lembra dela?

R – Ah, tinha dois quartos, sala, cozinha, um banheiro, fogão a lenha. Aí, lá na parte de trás da roça tinha todos os tipos de plantação, pé de laranja, pé de limão, pé de coco, cana, melancia, tinha tudo um pouquinho. Aí a gente ia lá, colhia, tudo saudável. Aí meu pai pescava peixe, de água doce, aí ele vendia na rua, com a buzina dele, uma cestinha, saía vendendo. E minha mãe de casa mesmo, na roça mesmo trabalhando com nós. Botava as crias do lado e ia para a roça.


P/1 – Você sempre trabalhou, desde pequena?

R – Desde pequena.


P/1 – Desde pequena.

R – Desde pequena. Na enxada, no facão, até uma vez meu irmão com raiva da minha irmã pequenininha pegou o facão na cabeça dela, pau [risos[. Aí saiu aquele sangueiro, minha mãe ficou desesperada, que o negócio de hospital lá era muito difícil, muito longe.


P/1 – Nossa, como é que vocês fizeram?

R – Aí a gente chamou meu pai de bicicleta e, chamou o vizinho que tinha um carro, aí levou para o coisa. Mas não foi nada sério não, só levou uns cinco pontos eu acho. Que aí tinha coco, essas coisas e tinha muito facão.


P/1 – Uhum.

R – Aí com o tempo, meu avô, a roça foi fracassando, a seca, aí foi aonde que ele vendeu. Aí foi aonde vieram tudo para Farol. Aí, meu avô aposentou, minha avó, aí, acabou o negócio de roça, essas coisas. Mas meu pai continuou trabalhando no peixe, ele pescava, até eu ajudava ele pescar também, peixe de água doce, é tilápia, traíra. Aí te dava tróia, rodava a rede assim, batia e puxava e aquele monte de peixe, cem, cento e poucos quilos de peixe, de tilápia.


P/2 – Onde? Onde vocês pescavam?

R – Isso já a casa do Farol. É no Farol já. Aí minha mãe limpava...


P/2 – Isso em qual rio que era?

R – Era no Lagamar.


P/2 – Ah, no Lagamar.

R – É, aí minha mãe limpava, nós ajudávamos a limpar, aí meu pai vendia o peixe tudo limpinho. Só não fazia o “tique”, mas aí vendia tudo limpo.


P/1 – O que é que é o tique?

R – É que faz ali o “tiquizinho” da traíra.


P/3 – Pega a ponteira e dá os cortes?

R – É, dá os cortezinhos.


P/1 – Como é que é, você faz um?

P/2 – Aqueles cortezinho que abre.

P/1 – Ah, só para um rip, rip, rip. Chama ‘tique”?

R – É, a gente fala “tique”.


P/1 – Ah, entendi. Só antes de, em Campo, né? Vocês ficaram quanto tempo lá? Você já era criança? Você ficou até que idade ali?

R – Olha, eu fui para Campos eu acho que eu tinha...


P/1 – Em Campos, né?

R – É. Quando eu fui para Campos, acho que eu tinha uns 11 anos.


P/1 – Desculpe, você não nasceu em Campos? Não?

R – Nasci em Campos, mas morava no interior.


P/1 – Então, no interior, na roça, tal. Você ficou lá da infância até uns 13, é isso?

R – É, nessa faixa.


P/1 – Lá você disse que o seu pai pescava, né?

R – Pescava.


P/1 – Você lembra qual é que era a técnica, como eles faziam ali?

R – É a malha da, ele é, como fala. Aquela linha náilon, a linha não, é totalmente diferente da do mar, é plástica, linha plástica. Aí as malhas são bem maiores porque os peixes são grandes. Aí eu não sei o nome certo da linha, eu sei que pegava muito peixe, vinha traíra, vinha cará. A gente pescava de boia, botar para pegar traíra, aí saía, colhia aqueles 200 e poucas boias, aí depois colhia as redes. Eu sei que nós vínhamos com bastante peixe, hoje em dia acabou, não tem mais.


P/2 – Lá nessa região?

R – É. meu pai hoje trabalha, é aposentado e trabalha na roça, porque o salário mínimo não dá pra manter eles, minha mãe não é aposentada.


P/1 – É difícil.

R – E minha mãe hoje trabalha de auxiliar de cozinha. Ganha 40 reais, por exemplo, sábado e domingo, aí ganha 80 reais.


P/1 – Entendi.

R – E ela sofre, problema dos ossos, mas fazer o que, tem que trabalhar. Até completar a idade da aposentadoria dela.


P/1 – Com certeza.

R – Vai demorar um pouco, ela tem 63 anos, meu pai que fez 65, agora dia 7 de março.


P/1 – É, me conta um pouquinho, voltando ainda para Campos e, como é que era. Você tinha tempo para brincar um pouco também? Você tinha tempo para, você tinha amigos no, vizinho?

R – Tinha primo, mas cada um na suas casas, porque as tarefas eram grandes, porque a gente trabalhava na roça do meu avô. Eu tenho pavor de boneca, porque eu nunca tive uma boneca, a boneca minha era o trabalho.


P/1 – Você não fazia aquelas de espigas? Não sei, tinha umas? Não tinha brinquedo?

R – Não, aí brincava muito quando podia, era aquele negócio de bolinha de gude, subia em pé de árvore. Quando podia também, quando não podia estava trabalhando. Porque na época no interior as coisas eram muito difíceis. Aí meu avô contava com os filhos, com netos, para não precisar pagar outras pessoas para ajudar na roça. Principalmente quando ele cortava, botava fogo na cana, para cortar a cana. Aí saía aqueles caminhãozão de cana, aquelas caçambas, tudo era a gente que cortava, os filhos, os filhos deles, meus pais, eu também já entrei muito, eu tenho até calo na mão, que é de facão, enxada.


P/1 – Olha.

R – Essa foi um calo já.


P/1 – Porque é que vocês foram para, não sei se você sabe isso, mas porque foi para o Farol e não para outro lugar? O que é que te levou, a família para o Farol?

R – Porque lá no Lagamar tem essa lagoa de água doce e, meu pai vivia disso. Aí comprou um terreno, ali construiu três, quatro cômodos de casa. Aí ali fomos melhorando, mas dependendo da pesca, da água doce. Aí continuou meu pai pescando, ele vendendo, minha mãe limpando, vendendo e, ele parou agora pouco tempo, com 60 anos, de vender peixe na rua. Até quase em Campos ele já foi de bicicleta vendendo peixe, Toco, Goytacazes.


P/1 – 50 quilômetros?

R – Faixa Grande, tudo, rodando tudo de bicicleta.


P/1 – E vendia tudo?

R – Tudo. Graças a Deus vendia tudo, aí trazia mercadoria, trazia fruta para nós.


P/1 – Você se lembra dessa mudança de cidade?

R – Lembro.


P/1 – E como foi esse mudar de lugar, mudar de vizinhos, mudar de...

R – Para a gente foi bom porque a gente saiu da roça, a gente conheceu outros lugares diferentes, mas foi bom, muito bom. Pelo menos saímos daquela agonia de cortar cana, aquela quentura de 40 graus, pensou em um canavial de cana.


P/2 – É.

R – Muitas vezes, eu até falo para o meu marido, que na hora do almoço, as coisas lá eram muito difíceis, na hora que ia abrir a marmita para comer, eu nem comia, eu pegava e ia para a cana, chupar cana. Lá vou chupar cana, aí eu começava a descascar a cana e chupar a cana. Porque lá, comida simples, né, aí aquela quentura, era um ovinho frito, mortadela. Aí eu não comia, eu preferia chupar cana.


P/1 – Uhum. Quando vocês mudaram, você parou de trabalhar ou continuou trabalhando?

R – Não, eu continuei então com o meu pai no Lagamar.


P/1 – Sempre indo pescar?

R – É, sempre.


P/1 – Ele te ensinou tudo?

R – Ele sempre ensinou.


P/1 – Você lembra a primeira vez que você foi pescar?

R – Ah, lembro, que eu até levei a mordida de uma traíra [risos]. Eu fui puxar o anzol, a traíra veio que veio e tampou aqui, tenho até o sinal daqueles dentes.


P/1 – [risos]

R – Também uma traíra desse tamanho.


P/2 – E isso foi em Campos ainda ou já foi no Lagamar?

R – Isso já foi no Lagamar. Lá também no interior tinha os rios também, mas só que meu pai não me deixava pescar não, porque era mais perigoso, era mais fundo. No Lagamar já é baixo.


P/2 – Como é que era a pesca no rio e, depois no Lagamar? Mudou um pouco o jeito de pescar?

R – Não, continuou, é a mesma coisa. Só que lá no primeiro, era fundo e, no Lagamar é baixo, é ralo.


P/2 – Mas aí o tamanho da rede era o mesmo?

R – São as mesmas redes.


P/2 – Mesma rede?

R – A mesma rede, a mesma malha. Eu só não sei te dizer agora que malha é, entendeu, eu sei que é linha plástica, não é linha da do mar, é totalmente diferente.


P/1 – Você conseguiria nos descrever, assim, como é que era? A técnica, quando vocês preparavam? Vocês saiam que horas? Como é que era esse?

R – Ah, meu pai, a gente não tinha hora para ir, era mais a hora que ele via que o peixe estava coiso. Aí, tipo, a rede já vivia na canoa, lá a gente fala canos, muitos falam batera. A gente pegava, ficava eu numa ponta da canoa, o meu pai atrás, no remo. A gente ia, começava a soltar a rede, eu soltava sempre a parte do, a que fica as pedras, o chumbo. Aí soltava o chumbo, meu pai ia lá soltando onde que fica aquelas boinhas, a cortiça, a gente rodava, até soltar a rede toda. Aí parava, papai enfiava um bambu, aí começava batendo. Batendo, batendo, batendo, aí levava umas uma hora batendo mais ou menos, aí meu pai entrava dentro da água, para ficar mexendo no mato para os peixes saírem do meio do mato, sair da toca. Aí ele, era muito bom, muito gostoso. Aí dava o tempo, “Está bom”, aí ele subia em cima da canoa, aí ele não olhava nem para o seco, para a beirada. Aí nós puxávamos a rede, aí já nós trocávamos, eu ficava nas cortiças e ele ficava no chumbo, que era muito pesado para mim. Aí meu irmão também estudava, era mais novo do que eu um ano, que eu tenho 37, ele tem 36, mas na época era tudo criança ainda. Aí nós puxávamos, para o meu pai, por baixo, aí vinha aquela coisa, aquela sacada de peixe, traíra, cará, tilápia, vinha muita coisa.


P/2 – E aproveitava tudo?

R – É, a gente limpava tudo. Limpava e depois meu pai saía vendendo. Ele congelava ali no gelo, ali na água de gelo, aí ele vendia em um dia, no outro dia ele vendia no outro dia, mas tudo fresquinho.


P/1 – E vocês que faziam tudo, pescava, depois ia lá limpava, cortava?

R – Limpava, daí meu pai saía para a rua para vender.


P/1 – Isso a família toda que participava disso?

R – Isso, era tudo unido.


P/1 – Era você, seu irmão, seus pais?

R – É, eu, meu irmão. Tenho mais dois irmãos, é o menino e a menina, só que eles eram bem menores e, minha mãe.


P/1 – Entendi.

R – Aí era tudo ali, junto ali.


P/1 – Então o trabalho da família era pesca?

R – É a pesca.


P/1 – Vocês pescavam todo dia?

R – Enquanto, antes do meu avô vender o sítio, nós vivíamos no sítio, na roça. Mas aí depois que ele vendeu, mas mesmo assim, nós estando na roça, meu pai trabalhava com o peixe. É sempre assim, era da roça, do peixe. Sempre foi assim. Hoje mudou porque ele está aposentado e está fazendo bico.


P/1 – No Farol, a roça vocês não faziam mais?

R – Não, a roça lá não tem.


P/1 – Não tinha mais?

R – Minha mãe tem a rocinha hoje lá no Farol. Ela continua no mesmo ritmo que era antigamente.


P/1 – Eles continuam lá, tal?

R – É, aonde a minha mãe mora, não tem nada. Ela tem um sitiozinho mais afastado, que é lá no Viega, é bem depois do Lagamar. E lá tem a caninha dela, tem os pezinhos de coco, tem aipim. Continua na mesma, no jeitinho dela, adora a roça. Ontem mesmo ela ligou falando que tinha ido para a roça, aí pegou até um chuveiro no meio do caminho. Aí fiquei aí, conheci meu marido com 14 anos, aí namorei três meses, de três meses meu sogro foi lá me pegar. Pegou de bicicleta, eu lembro buscou na bicicleta vermelha. Aí me levou para lá, minha mãe quase deu um piripaque, porque 15 anos. Aí fui morar com minha sogra, graças a Deus é minha segunda mãe, amo minha sogra, meu sogro também amo ele. E dali meu marido pescando, antigamente o mar lá era muito bravo, muito bravo mesmo e, aí meu marido já perdeu muitos colegas dele, que morreram, que o barco tombava, aí o barco caía por cima deles. Aí tem também a Barra do Fuá que é muito perigosa, também já perdeu muita gente lá nas pedras. É muito triste. Aí depois os anos foram passando, foi passando, meu marido também, ele tinha um barquinho antigamente, foi, nós estamos em 2013, tem uns 13 anos, tem para mais de dez anos que o meu marido tinha um barquinho, aí perdeu em alto mar, foi para o fundo. A sorte dos pescadores que antes do barco afundar, ele chamou socorro no rádio de comunicação. Aí foi até um rapaz aqui de Macaé que socorreu eles. Aqueles bichinhos das águas.


P/1 – Mauricinho.

R – Mauricinho das Águas, que socorreu os pescadores. Aí levaram muito tempo indo na água, quando o rapaz pegou ele, levou direto para o seco. Aí levou ele posto, enrolou um cobertor, que já estava dando um...


P/1 – Um choque, né? Térmico.

R – É, já estava congelando. Aí foi muito triste, foi aquela agonia e, consegue, vai lá na Prefeitura e vê se consegue recuperar o barco. Eu sei que só conseguiu do barco, só o motor. Aí nós vendemos por mil e 500 reais, o barco valia 38 mil. Perdemos tudo, aí começamos tudo do zero.


P/1 – Isso ele estava sozinho? Como foi isso aí?

R – Dois pescadores.


P/1 – Dois pescadores e, ele não contou como foi? O que é que aconteceu? De repente?

R – Ele disse que estava ventando muito, aí ele ancorou o barco, foi passar um cochilo. Aí nisso também foi de espantar, a água já estava dentro do barco. Que antigamente tinha muito vento nordeste, muito forte. Aí já estava com os cestos, isopor tudo cheio, dormiu, aí quando foi ver já estava vindo a água gelada nos pés. Aí meu marido que ficou com o prejuízo. Aí inclusive até um dos pescadores é primo dele, mas graças a Deus não morreu ninguém, o mais importante foi isso, senão a tragédia para nós ia ser pior.


P/2 – E eles ficaram quanto tempo no mar? Esperando chegar socorro?

R – Olha, eu acho que ficaram mais de, umas duas horas mais ou menos, eu acho. Eu não sei em detalhes não, mas acho que ficou por mais de duas horas.


P/1 – Só uma pergunta, você falou no passado muitos perderam muitos amigos, né?

R – Meu marido perdeu.


P/1 – Perderam muitos amigos em mar, tal. Qual é que era a infraestrutura que tinha no barco? Ou mesmo dessa polícia marítima para socorro? Como é que?

R – É porque não vai empurrar o barco para dentro do mar, tem uma tábua e tem uma coisa ali que encaixa o ferro do trator. Aí nisso, é de madrugada, quatro e meia da manhã. Aí o mar às vezes está até bravo e eles não estão vendo, ainda manda acho, mal mandado, não sei. Inclusive até um amigo do meu marido, muito amigo mesmo, foram criados juntos, ele morreu porque não soube nadar. Pescava no mar, mas não sabe nadar. E isso tem até hoje, muito pescador já velho e, não sabe nadar. Aí o barco foi e virou por cima dele, aí ele morreu praticamente esmagado.


P/1 – Mas isso já é na costa já?

R – Não, lá na beira da praia mesmo. Vocês não foram no Farol, não?


P/1 – Eu não conheci.

R – Você não conhece não. Lá na beira da praia tem um monte de barco, tem para mais de 800 barcos.


P/2 – Os barcos ficam na areia. Em cima da areia, não fica dentro da água igual aqui.

P/1 – Retomar essa questão da segurança mesmo, quando vocês iam para o mar, assim, vocês tinham colete? Era obrigatório?

R – Tem colete. É obrigatório no barco.


P/1 – Tinha fiscalização disso? Como é que era? Tinha gente que, vocês tinham curso de segurança?

R – Nada.


P/1 – Tinha alguma coisa? Vocês aprendiam por conta.

R – Natural mesmo, a gente olha, vai e, vai aprendendo.


P/2 – Hoje tem, mas antes não tinha não.

R – É que antigamente as coisas eram mais difíceis, hoje em dia a tecnologia vai mudando muito. Antigamente não tinha nada disso. E o mar no Farol é muito bravo. Aí por isso que nós viemos para cá, porque o mar aqui é mais manso.


P/1 – Entendi. Foi depois que vocês perderam o barco que vieram para cá?

R – Foi, mas ainda ele ficou lá pescando ainda. Ficou pescando muito tempo lá ainda, muitos anos. E dia 30 agora eu faço 22 anos de casada.


P/1 – [risos]

R – 22 anos de casada.


P/1 – Legal, hein.

R – Aí temos essas duas crianças, o Álif tem 19 e, a minha tem 12.


P/1 – Já vou até perguntar sobre eles. Você não falou, né, como você conheceu o seu marido. Como foi que você o conheceu?

R – Ah, isso aí eu ...


P/1 – Você só falou que casou. [risos].

P/2 – Só que o sogro foi buscar.

P/1 – É, que o sogro foi buscar. Como é que você conheceu...

P/2 – Mas porque é que o sogro foi lá? [risos].

R – Porque aonde a família dele mora tem mais recurso de onde a minha mãe morava, a família nossa. E era bem distante, a gente ia a pé, uma hora de viagem a pé. Porque antigamente não tinha ônibus, era só bicicleta e cada um tinha seu carro ou moto, cada um se virava do jeito que podia. Aí um dia eu estava no ponto do ônibus com a minha mãe, aí eu vi aquele magrelinho, ele tinha 14 anos, mas aí eu já tinha visto ele em baile, em discoteca. Antigamente tinha muito discoteca em Campos, aí eu sempre paquerava, ficava olhando. Aí teve um dia que nós estávamos em um baile, veio o irmão dele falar comigo, que queria ficar comigo e minha mãe do lado. Eu falei assim: “Não, eu não quero ficar com você não, eu quero ficar com o seu irmão”. Aí ele foi e falou assim: “Aquele magrelinho ali?”, [risos]. Eu disse: “É, aquele magrelinho ali”, aí dali, ele me apresentou e, nós ficamos, assim, dançando. Aí depois sumiu, levei uns três meses sem ver, aí depois disso ainda encontrei de novo na discoteca. Aí dali, nós estamos até hoje.


P/1 – [risos].

R – 22 anos vamos fazer agora dia 30. Até no dia que eu fui morar com ele, era um sábado de Páscoa.


P/1 – Ora, que legal.

R – Aí depois eu fui morar com a minha sogra, aí depois ele foi trabalhando, trabalhando, aí construímos uma casinha nossa no quintal da nossa sogra. Aí meu marido pegou e vendeu a casa, barganhou em um barco, aí foi inclusive até esse barco que ele perdeu em alto mar. aí minha mãe me deu um pedaço de terra lá no Lagamar, aí ele foi e construiu a casinha nossa lá. Aí ele, continuando a vida nossa, aí depois a pescaria lá foi fracassando, fracassando, aí nós viemos para cá.


P/1 – Esse fracassando, fracassando foi por causa do acidente ou é porque foi caindo a pesca?

R – É, de ele perder o barco também, aí ele enjoou de lá também por causa da decepção que ele teve, que foi muito grande, perder um barco assim da noite para o dia, foi muito suor, muito sacrifício dele, que ele pesca no mar desde nove anos de idade e, ele está com 37. Foram muitos anos de mar, já pegou muito mar bravo. Mas nós já fomos já para o Norte, lá para o Espírito Santo, é Barra do Riacho nós já fomos, Aracruz nós já fomos para lá. É, tem outra cidade também.


P/2 – Santa Cruz?

R – Hã?


P/2 – Santa Cruz.

R – É, Aracruz, Barra do Riacho e, é aonde que tio Carlito mora, Regência. Tudo para lá, tudo nós já fomos.


P/1 – Vocês?

R – E ele vai, leva uma semana. Aí vê que dá para levar nós, aí carrega tudo, nós somos tudo unido. Para onde que ele vai, ele nos carrega.


P/1 – Nessas pescarias, você acompanha ele, né? Até hoje, tal. Como é que é? O que é que você faz? Qual é que é a sua função ali? Como você ajuda? Como você, qual é que é o trabalho do pescador?

R – O pesado é ele que faz, aí eu fico segurando o leme. Aí eu ajudo a soltar, abrir os braços do barco, aí ele vai lá na frente, prende. Aí depois a gente vai soltando a rede dentro d’água, aí joga a porta porque é pesada para mim. Aí dali nós vamos, aí ele solta ali 80 metros de corda, 60 metros de corda. Aí leva ali umas três horas, duas horas e meia de arrasto, arrastando a rede, para depois puxar para cima. Aí vem camarão, vem peixe, vem arraia, vem cobra, tem até cobra venenosa e, até picou ele, ele até ficou no hospital, no soro. A cobra malhada. Uma hora eu estava até procurando na máquina, nas minhas fotos que eu tinha na máquina, mas a menina me passou para o computador, mas o computador meu está com um probleminha, aí não dá para ver. Aí é caçar cada camarão, muito bonito, camarão tudo vivinho pulando, é muito gostoso. É muito bom mesmo.


P/1 – E vocês pegam, trazem tudo. Você também limpa, continua limpando, nã, nã, ou você já passa para alguém, para o mercado? Como funciona isso?

R – Aí vai e bota no isopor e separa peixe, camarão. Aí vai e bota, gela, aí no outro dia ele vem para o mercado, vai seis horas, cinco e meia, aí vai para o mercado e vende. Aí ali cada um bota um preço, aí quem pagar mais, aí a gente entrega.


P/1 – Ah, você não tem um comprador já direto?

R – Não, não. Ali fica, ali quem pagar mais, botar preço. Aí agora a pesca está até fechada, são três meses de pesca fechada, o camarão. Ali ele foi para o peixe, está pescando peixe. Aí só vai chegar sexta-feira.


P/1 – Isso que você falou é a Defesa, né?

R – É, a Defesa.


P/1 – Vocês recebem por isso? Esse período? Como é que funciona esse?

R – É, recebe três meses, pela Federal. Eu não recebo não, é ele quem recebe, meu marido. Eu estou ajeitando para eu receber agora.


P/1 – Uhum.

R – Aí recebe três salários mínimos. Mas só que aqui, Macaé, só recebe depois que a pesca libera.


P/2 – É? Segundo o Medeira já recebe.

R – Aqui? Meu marido recebe por Campos, não recebe por aqui ainda não. Ele vai trazer os documentos dele para cá.


P/1 – Entendi.

R – Lá vai começar dar entrada dia 13 ainda, do mês que vem. E a turma lá está pescando, porque tem família para dar comida.


P/3 – Depois que passa o período é que cai o dinheiro?

R – É, aí vai viver como?


P/1 – É, as contas continuam, mas. [risos]

R – Aí os filhos pedindo comida, vai fazer o que, tem que ir para o mar.


P/1 – Tem que ir para o mar?

R – Tem que ir para o mar, senão, aí complica.


P/1 – Você, sempre ajuda ainda na medida do possível, tal. E vocês pegam para vocês também? Comem? Como é que?

R – A gente, até tem um período que está dando muito camarão, a gente descascava em casa. Aí eu tinha até 13, 14 mulheres descascando camarão. O quintal era cheio só de mulher descascando camarão. Aí tinha o comprador, vinha e pegava tudo limpinho, levava. Até agora esses dias ele ligou, quer um camarão, mas a pesca fechou.


P/1 – A pesca fechou.

R – Aí não tem como. Aí a gente limpa o sete barbas, não é camarão pequenininho, não. Aí já é um camarão grande, mas inclusive até não está tendo dele não, ele sumiu.


P/1 – Me fala uma coisa, como foi essa opção para vir para Macaé? Porque Macaé?

R – Porque aqui é mais fácil para pescar, porque é mais perto e, não tem tanto perigo na boca da barra.


P/1 – Uhum.

R – E aqui as coisas têm mais valor, a mercadoria tem mais preço. E lá não, lá paga, já chegou até 50 centavos um quilo do camarão.


P/2 – Ixe.

R – É muito barato, aí não tem como. Aí lá tem a despesa, botar o barco para dentro, para puxar, tem despesa de óleo, de gelo. Se não apanhar a mercadoria, fica devendo no final da semana. Tem que pegar muito camarão para pagar despesa, para sair da despesa, para ganhar já o ganha pão.


P/1 – E aqui?

R – Aqui não tem despesa.


P/1 – Também não são essas despesas?

R – Aqui só bota o óleo e o gelo. E vamos para o mar com Deus. Aí o custo já é mais barato para nós, rende mais. A gente vai, depois da ilha e pesca o que, duas horas depois da ilha, para dentro. Uma hora, depende do local onde está dando o camarão. Porque bota um GPS marca ali, que já sabe mais ou menos, que tem os marcadores, nomes dos lugares onde ficam os camarões.


P/1 – Hoje o barco está todo equipado, assim?

R – Tem. Tem GPS.


P/1 – O que é que tem ali? Quais são, o que precisa para esse barco sair? Tem o GPS, que mais?

R – GPS, tem colete salva vidas, tem aquelas boias que coloca aqui, tem aquele negócio que apaga fogo, extintor, tem que ter isso também, os documentos tem que estar tudo certinho, a Capitania.


P/2 – A documentação.

R – Senão...


P/1 – Rádio?

R – Rádio comunicação. Tem barco que tem a tal da...

R/2 – Sonda.

R – A sonda. O nosso, que eu e meu marido pescamos, tem isso tudo.


P/1 – Você falou que vocês têm o?

R – Tem o guincho.


P/1 – Guincho?

R – Que ali que é, aquela ferragem ali que puxa a corda para cima. Vai puxando, vai puxando, aí até chegar. Puxa as portas, aí as portas têm que botar para cima na mão, porque o guincho não tem como puxar. Aí depois vem a rede.


P/1 – Vocês têm uma infraestrutura ali para dormir? Para comer? Como é que é?

R – Tem, o colchonete na casinha. Aí tem o fogãozinho, fica debaixo da tábua, eles falam a cozinha. Aí tem a prateleirazinha que tem as mercadorias, tudo nos potinhos. Aí ali eu faço arroz, frito camarão, frito peixe, faço a farofinha. Já fiz frango na batata.


P/2 – [risos]

R – É.


P/1 – Tem um cardápio.

R – É, cozinha normal. É a cozinhazinha normal, eu só tenho que levar a mercadoria. Já fiz carne seca na batata, eu cozinho normal.


P/2 – Depois de quanto tempo, depois que vocês perderam o barco, quanto tempo demorou para conseguir adquirir outro barco?

R – Ah, demorou um bocado. Levou uns quatro anos e meio, mais ou menos. Aí depois eu vim pedir para o Centro, de uma meia. Ali ele pagou, foi pagando por mês. Aí pagou, depois apanhou a outra meia e ficou de sócio. Aí foi só trocando de sócio, sócio. Aí hoje ele está pescando aí peixe, com Deus.


P/1 – Vocês têm algum crédito para esse setor? Assim, para a pesca? Tem algum apoio? Prefeitura, Estado?

P/2 – E algum financiamento de banco para comprar essa parte? Ou não, teve que juntar o dinheiro?

R – Não, parece que está surgindo isso agora. E eu não sei como é que é direito, não. Mas parece que tem banco aí que está, vai soltar verba aí para comprar barco. Aí tem não sei quantos anos para poder pagar. Não sei como é que é direito não, mas parece que já tem já.


P/2 – Mas o caso de vocês não foi?

R – Não.

P/1 – Vocês fazem parte de alguma cooperativa? Associação?

R – Associação daqui de Macaé. É até do Júnior, Júnior Abacaxi. Aí a gente é associado ali. No caso aí, meu filho e meu marido são associados ali.


P/1 – Ah, é? E porque é que vocês procuraram? Qual é que é o apoio? Qual é que é a troca que vocês têm?

R – É porque ali eles ajudam os pescadores. Por exemplo, precisa de um plano de rede, ali se for no orçamento que vem da verba da Prefeitura, eles vão e dão. Depende de uma hélice, eles vão e dão. É uma peça de um motor, quebra um motor eles vão, correm atrás. Se eles puderem ajudar, eles ajudam, não atrapalha. E Juninho Abacaxi corre muito atrás disso, para os pescadores. Ajuda muito, ele é bem do povo mesmo.


P/1 – Bom, vocês conheceram ele aqui, né?

R – É, aqui.


P/1 – Como foi chegar a Macaé? Porque é que vocês vieram parar na Barra? Como foi isso?

R – É, nós viemos para a pesca mesmo, para pescar.


P/1 – Você lembra? O que é que você achou? Você já conhecia aqui?

R – Não, no primeiro dia, quando eu vim aqui, meu marido veio pescar, aí levou 15 dias e foi lá pegar nós. Aí alugou uma kitnetezinha, com um cômodo, uma cozinhazinha. O fogão meu é um fogãozinho de uma boca auto reversa. Aí teve uma chuva aí, perdemos tudo. A água, era para baixo assim a casa. Aí inundou tudo d’água. Molhou tudo, perdemos tudo, colchonete, travesseiro, coberta. A coberta deu para recuperar ainda, mas o resto jogamos tudo fora. Aí os vizinhos ajudaram, cada um deu uma coisa. Aí ali foi um fogãozinho, eu cozinhava o feijão primeiro, depois fazia o arroz, fazia o macarrão, ou fazia a carne que tinha, ou fazia um peixe, mas com uma boquinha só. Aí depois nós fomos, passando anos, aí hoje nós estamos nessa casa aqui. Pagamos 700 reais de aluguel aqui nessa casa. Mas passamos um monte de perrengue ainda, altos e baixos.


P/1 – Mas, família, vocês estão gostando de Macaé? Foram bem acolhidos? Como foi?

R – Muito, as pessoas aqui são muito boas. São mais, assim, que ajuda a gente do que em Campos. Daqui eu não saio não. Não tenho vontade de ir para outro lugar mais não. Até a casa minha em Campos eu vendi, para ficar aqui. Não tenho de vontade de voltar para lá não.


P/1 – Você diz qu